5.10.11

Ardi

Podia sentir cada pedaço de mim a incendiar-se. Lentamente como quem pede licença, aquele fogo apoderava-se de mim, e eu que tanto me debatia para lhe resistir via agora as minhas forças reduzidas a cinza.
Era uma sensação agradável aquela de parar de lutar, de baixar os braços e aceitar o que há muito sabia que acabaria por acontecer. Afinal de que vale debatermo-nos contra a nossa própria natureza? Se há algo que as psicologias baratas do doutor Phil nos ensinaram foi que renegar o nosso próprio ser nunca deu bom resultado, pelo menos a longo prazo.
Agora que reflicto bem sobre o assunto, em que estava eu a pensar? Acharia eu que conseguia conter este monstro dentro de mim? Ideia patética. Ele não está dentro de mim, ele sou eu.
Porque eu sou a bela e o monstro, sou o amor e o ódio, o saber e a ignorância. Sou todos os extremos sem ser nenhum meio-termo. Sou tudo o que todos nós somos mas nunca admitimos, porque na nossa natureza está tudo isto, o que nos distingue é as escolhas que fazemos.
A sociedade estabeleceu a sua definição do correcto e do errado ignorando o facto de esses serem valores relativos. Só eu posso dizer a mim própria o que está ou não correcto porque só eu me conheço o suficientemente bem para me julgar, só eu sei as razões que me levaram a ter determinada atitude.
Agora sinto o fogo a aflorar-me a pele e já o aceito como sendo parte de mim, é bom senti-lo presente. É a dor que nos relembra o que realmente somos, humanos.